A professora em frente ao quadro branco, que na verdade era
um retângulo verde escuro, distribuía palavras ao falar sobre o romantismo. E
eu sem perceber nem associar uma coisa a outra me rendia a um amor platônico.
Como todo amor platônico, intenso e secreto.
Aquela menina de nome estranho, até um pouco mais velha do
que eu, prendeu meu coração. Já sabia eu que Lulu Santos não era mais o último
romântico!
Assistia todos os dias à reprise da novela das oito, pois
sabia que ela gostava e quem sabe assim poderia ter assunto ao me aproximar
dela. Mas nunca consegui usar de tal subterfúgio.
Noutra aula, outra professora sugeriu que fizéssemos um
cartão de São Valentim, dia que por teoria, não se bate em ninguém, e o coração
bate mais forte. Pra não ser injusta com ninguém, a metodologia foi a do amigo
secreto, cada um tirava o nome de alguém e lhe entregava depois o cartão no
lugar do presente. Claro que não tirei o nome estranho que bem desejava, mas, para
minha surpresa, ela tirou o meu, o meu nome comum, mas o meu, o meu...
Guardei aquele cartão como se fosse um objeto sagrado, era
um cartão vermelho (Epa! Cartão vermelho! Não tinha feito essa associação). Vez
em quando eu o olhava, sem manuseá-lo muito para que não se deteriorasse. Devido a esse fato e a timidez do momento,
foi que só depois de cerca de três anos é que descobri que o cartão tinha duas
partes. Na parte de dentro lia-se:
“Você é muito paradão!
Escolhe logo alguém e ame para ser amado”
Seria isso alguma indireta? Será que a menina de nome estranho,
e que eu amava*
em segredo, também em segredo me amava?
Algum dia quem sabe eu descubra o que realmente queriam
dizer essas palavras, ou ela descubra que eu gostava assim dela. Coisa de
criança eu sei, porém, exatamente por isso, verdadeiro.
Mas não importa, afinal, a menina de nome estranho que eu
amava, hoje está casa, e logicamente não é comigo. Tem até uma filha, quase tão
bonita como a mãe.
Ficará guardada pra sempre em meu coração a lembrança dela.
Assim como ainda fica guardada em minha carteira a cartinha que escrevi para
ela; mesmo em frangalhos, amarelada e de letras desbotadas, ainda permanece
firme, e lembro-me quase que de cor seus dizeres.
Ah a garota de nome estranho que eu amei*!... Amei o nome e
sua detentora também. Certamente jamais saberá
que amei.
Ah garota!
Ah nome!
Ah amor!
* Digo que “amava” aquela garota de nome estranho, assim no
passado, apenas por estética, porque creio que soe melhor. Pois sou adepto do
pensamento que alguns atribuem a Fernando Pessoa: “Amar é verbo que não se
conjuga no passado, ou se ama para sempre, ou nunca se amou verdadeiramente”.
Mas dizer que “amo” aquela garota de nome estranho, pode parecer também
estranho. Mas de fato o é, até porque, hoje ela é uma garota casada. Porém, Amo
sim. Provavelmente não do jeito que pensava amá-la na época, mas amo sim.